Nas águas do Velho Chico

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Durante a última semana, todos ficamos chocados com a trágica morte de Domingos Montagner, submerso entre pedras no Rio São Francisco. Em todas as emissoras, jornais, sites que se visse, havia uma notícia sobre o ator. O fato me impactou de certa maneira, porque Domingos lembrava vagamente o rosto de meu avô. Ele morreu quando eu ainda era pequeno, apenas 2 anos, portanto não pude aproveitar muito o tempo com ele. Os trabalhos de Montagner faziam-me recordar o pouco que vivemos juntos.E quem poderia imaginar que o ator, no auge de sua carreira, poderia sofrer algo do tipo? Essa tal de vida é mesmo estranha...

            54 anos, 5 novelas, 6 minisséries, 9 filmes. Mesmo assim, apenas 8 anos de carreira na frente das telas. Sua verdadeira paixão era trabalhar com teatro e com circo. E foi como palhaço que Montagner conseguiu notoriedade. A página especial do G1 sobre a vida do ator o chama de “um palhaço que não falava muito: preferia o humor físico e as acrobacias para se comunicar com o público”. E talvez seja essa sua forma especial de se interagir com seu espectador que tenha feito Domingos ser tão notado e querido em pouco tempo de televisão.

            Há quem encontre ligação de todo acontecimento com outros fatos que se passaram. A amiga Fernanda Villares, companheira de teatro do ator, ter sonhado com ele e telefonado antes de tudo ocorrer; o fato de Santo, seu personagem, quase ter morrido nas águas do São Francisco, salvo pelos índios; até mesmo de o irmão de Domingos ter como nome Francisco. Apenas uma coisa é fato “de fato”: os atores, Montagner e Camila Pitanga, estavam em uma área de risco sem que houvesse segurança alguma, placas de aviso, nem mesmo salva-vidas. Quantos Santos ainda morrerão para que os problemas sejam resolvidos? Realmente, a essa pergunta não temos resposta, pelo menos não no momento.

            Fico pensando. Repito a pergunta do primeiro parágrafo. Quem poderia imaginar que o ator, no auge de sua carreira, poderia sofrer algo do tipo? Ele, que ainda construía sua carreira na TV, que há algumas semanas lançava o novo filme, uma comédia, no estilo que mais gosta. Um acidente. Um descuido. Um auge da carreira, que agora fica nas águas do Velho Chico. A repercussão da morte de Domingos mostra que não estamos preparados para essa situação. Veja como é pesado, como é difícil para nós falarmos essa palavra. Morte. Já vem um aperto no peito só de pensar. Quem conseguiu dar uma nova visão para o ocorrido foram os índios que participaram da novela, os mesmos que salvaram o personagem Santo da morte no São Francisco. O trecho a seguir foi lido no Encontro:

            “A novela contou todos os mistérios do rio, e esse é mais um desses. Mas ele se tornou um ser de luz, pois a água não tira a vida, dá a vida e fiquem felizes pela alma dele, pois quando ele entrou no rio, ele se despediu do corpo e alma, nasceu em um mundo melhor. Algum dia, os brancos irão entender isso, então temos que fazer um ritual para que os brancos entendam e sejam fortes, pois ele está bem. Ele, agora, é um protetor do rio São Francisco”.

            Talvez nós brancos, negros, pardos, todos nós não estejamos realmente prontos para lidar com isso. A morte não nos é bem-vinda.Deve ser porque não está em nossas mãos. Podemos cuidar para que ela venha mais longinquamente, não a controlar. Não conseguimos aceitar que alguém que tanto gostamos ou admiramos passe para outro mundo, seja qual for sua crença. Mas se aconteceu, deve ser porque era a hora certa. Pouco conheci meu avô; não tê-lo mais por perto não fez com que fosse apagado de minha mente. Ao contrário, fez com que tivesse um carinho enorme pela pessoa que me é apresentada em histórias de família. A hora dele foi aquela, não estava em suas mãos, nem nas mãos dos parentes. É a vida... Céus e terras passarão, e continuaremos sem entender os mistérios dessa tal de vida.

           Apenas algumas palavras de uma pessoa pensante... João Pedro Pinheiro, 18, é aluno do curso de Jornalismo na Unesp Bauru e escreve crônicas em seu blog http://joao.curiosocia.com.

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