Bastidores: incoerências, valores e ambiente levaram Atlético-MG a apreciar "divórcio" com Sampaoli

Entenda por que, em tão pouco tempo, a diretoria abandonou a postura de "garantir" o argentino para 2021 e, hoje, até comemora internamente a saída do treinador

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O relacionamento entre Atlético-MG e Jorge Sampaoli chega ao fim. O contrato entre as partes tinha validade até o fim de 2021, mas será rompido na metade. Há dois meses, quando a atual diretoria - encabeçada por Sérgio Coelho - assumiu o clube, o discurso era de que o argentino teria continuidade na próxima temporada. Em pouco tempo, tudo mudou. Hoje, nos bastidores do Atlético, a sensação é de alívio com saída do argentino. E o ge explica os porquês.

Jorge Sampaoli na Cidade do Galo — Foto: Pedro Souza/Atlético-MG

Jorge Sampaoli na Cidade do Galo — Foto: Pedro Souza/Atlético-MG

Negociação complicada e volúvel

Não é novidade para ninguém que o Atlético está envolvido em um projeto a médio/longo prazo. Os investidores começaram a injetar muito dinheiro no clube em 2020, e a ideia é que um time forte e consistente esteja consolidado em 2022, ano da inauguração da Arena MRV. Para que o próximo ano seja de muito sucesso, o clube pretende ter, além de um time de ponta, um treinador com continuidade de trabalho. Quer, portanto, que o comandante de 2021 fique para 2022.

Para isso, o Galo abriu conversas, mesmo antes do primeiro ano de contrato de Jorge Sampaoli, para renovação até dezembro de 2022. O papo evoluía, mas houve um desgaste muito grande na relação entre treinador e diretoria durante o processo. Houve pedidos do técnico considerados "absurdos" pelo clube, entre eles um alto valor de "luvas" (prêmio por assinatura de novo compromisso), que teria de ser pago já em janeiro de 2021.

Sérgio Sette Câmara e Jorge Sampaoli no dia do acerto do técnico com o Atlético — Foto: Divulgação

Sérgio Sette Câmara e Jorge Sampaoli no dia do acerto do técnico com o Atlético — Foto: Divulgação

O salário também aumentaria e, ainda assim, as partes chegaram a um consenso sobre um novo valor mensal. Dias depois, porém, quando o Atlético entendia que o acordo estava encaminhado, o treinador apareceu com novas exigências. Essas mudanças de ideia, que tornaram a negociação complexa e volúvel, foram, aos poucos, minando o interesse atleticano na continuidade.

Além do desgaste gerado no processo de negociação, Sampaoli comunicou, em dado momento, que gostaria de encerrar as conversas para ampliar seu vínculo. A direção, então, concluiu que a extensão do contrato não aconteceria e, a partir daí, passou a trabalhar para trocar o comandante já agora, no início de 2021, respeitando a ideia de que haja continuidade de 2021 para 2022.

Postura no dia a dia

O perfil do treinador no dia a dia da Cidade do Galo também vinha incomodando grande parte da diretoria. Muito fechado, o treinador limitava conversas e decisões com sua comissão técnica e impunha uma série de limitações no CT. Funcionários do clube, por exemplo, eram proibidos de acompanhar treinamentos (aconteceu até com ídolos atleticanos, como Léo Silva e Éder Aleixo).

A restrição era tão grande que Sampaoli e sua comissão não compartilhavam sequer vestiário com profissionais da comissão técnica fixa do clube. Aqueles que não eram do "grupo" do argentino se trocavam em outro local (ou outro momento). Além disso, o estilo "duro" do treinador na rotina da Cidade do Galo criava um ambiente pesado para os colaboradores, que não se sentiam à vontade na presença do argentino.

Jorge Sampaoli e Gabriel Andreata — Foto: Bruno Cantini/Atlético-MG

Jorge Sampaoli e Gabriel Andreata — Foto: Bruno Cantini/Atlético-MG

Outro ponto que gerou desgaste foi o fato de Sampaoli frequentemente interferir em tomadas de decisão que não cabiam a ele, como o departamento médico, por exemplo. Já aconteceu de o DM "vetar" um jogador para uma partida e, ignorando a recomendação, o argentino convencer o jogador que é possível jogar e forçar a escalação, o que foi interpretado, internamente, como irresponsabilidade.

A "CovidFest"

No último mês de novembro, o Atlético atravessou um surto de Covid-19, que atingiu 20 pessoas (entre comissão e jogadores). Na mesma época, houve uma festa promovida por Gabriel Andreata, gerente de futebol de Sampaoli, o que teria sido um possível evento catalisador da propagação da doença no clube. O episódio repercutiu muito mal internamente, o então vice-presidente Lásaro Cândido chegou a criticar publicamente e pedir "respeito ao coletivo" e, até entre os jogadores, Sampaoli perdeu moral.

Andreata, inclusive, nunca foi bem visto nos bastidores atleticanos. Assumiu o cargo de "gerente de futebol", mas a cúpula alvinegra sempre fez questão de destacar, inclusive em entrevistas, que era mais um "auxiliar" de Jorge Sampaoli e não tinha nenhuma função de diretoria ou gerência no clube.

Reação após protesto

Já no fim de janeiro, antes do jogo contra o Santos, no Mineirão, integrantes de uma torcida organizada do Atlético foram até a porta da Cidade do Galo protestar. Entre as pautas estavam pedidos de "raça, vontade e compromisso" e de titularidade do goleiro Rafael, preterido por Sampaoli. O técnico ouviu gritos de "vacilão" direcionados a ele e chegou a ameaçar não comandar o time na beira do campo na partida contra o Santos. Teve que ser demovido da ideia, e acabou indo para o banco normalmente.

Protesto da torcida do Atlético-MG na Cidade do Galo — Foto: Reprodução

Protesto da torcida do Atlético-MG na Cidade do Galo — Foto: Reprodução

A reação foi vista como exagerada nos bastidores do Atlético e interpretada como mais um episódio de demonstração de insatisfação forçada do treinador, que várias vezes ameaçou deixar o clube, exigindo, entre outras coisas, reforços. Outro relato ouvido pela reportagem foi de que o treinador usava possíveis propostas que recebia ao longo do ano como argumento para fazer novas exigências e até ameaçar saída.

Incoerência no uso de jogadores

Algumas convicções de Jorge Sampaoli - que não se confirmaram - no que diz respeito à utilização de atletas também geram incômodo. Há dois exemplos mais evidentes.

O primeiro é sobre Léo Sena. Em junho de 2020, o Atlético tinha um pré-acordo para assinar com o jogador seis meses depois, no fim do ano, sem custo. Sampaoli exigiu a contratação em imediato, em caráter de urgência, e o Galo gastou R$ 4 milhões para que isso se confirmasse. O volante chegou, fez três jogos pelo clube (nenhum como titular) e acabou emprestado.

Léo Sena: pedido "urgente" de Sampaoli, pouco jogou — Foto: Pedro Souza/Atlético-MG

Léo Sena: pedido "urgente" de Sampaoli, pouco jogou — Foto: Pedro Souza/Atlético-MG

O segundo caso foi o de Maílton. Em setembro, Sampaoli se reuniu com integrantes da então diretoria e comunicou que não contava com o lateral-direito. Dias depois, no jogo contra o Bragantino, escalou o garoto como titular, improvisado como ponta. Foi o único jogo de Maílton como titular com Sampaoli. Ele acabou cedido ao Coritiba.

Fonte:https://globoesporte.globo.com/futebol/times/atletico-mg/noticia/bastidores-incoerencias-valores-e-ambiente-levaram-atletico-mg-a-apreciar-divorcio-com-sampaoli.ghtml

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