Da influência de Diniz aos 7kg a mais: Antony conta os segredos do rápido sucesso no Ajax

Ex-São Paulo fala do sonho de jogar na Seleção, a evolução física e tática e da adaptação na Holanda: "Pressão era na favela quando eu 9h ia para a escola e depois só ia comer às 21h"

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Em pouco mais seis meses de Ajax, Antony já separa uma estante para os seus prêmios de melhor jogador da partida. E também de melhor do mês no Holandês, como aconteceu em dezembro. Em 19 jogos, o atacante, de 20 anos, marcou nove gols. São três a mais que os seis anotados nos 52 pelo São Paulo. O sucesso veio rápido na Europa. E ele diz que não sentiu tanto o peso da mudança.

Pressão maior era quando eu morava na favela e 9h da manhã ia para a escola e só comia alguma coisa às 9h da noite. Isso sim é um pouco de pressão. Fora isso, a gente se adapta rápido"

— Antony, atacante do Ajax

Em entrevista ao podcast Gringolândia, o atacante do Ajax contou mais. Antony ganhou sete quilos de massa muscular, fruto do trabalho que fez durante a paralisação do futebol no início da pandemia.

Antony comemora seu gol pelo Ajax no empate com o PSV, em clássico no último fim de semana — Foto: Laurens Lindhout/Soccrates/Getty Images

Antony comemora seu gol pelo Ajax no empate com o PSV, em clássico no último fim de semana — Foto: Laurens Lindhout/Soccrates/Getty Images

Antony no Ajax:
19 jogos
9 gols
7 assistências

A evolução física o ajudou em um jogo mais rápido e intenso do que enfrentava no futebol brasileiro. Mas o jovem faz questão de citar outra ajuda na chegada à Europa: os meses de convivência com o técnico Fernando Diniz no São Paulo.

– Dentro de campo, ele cobra, cobra e cobra. Mas fora, é um cara totalmente diferente. Tem resenha, conversa. É um cara muito amigo. Acabei acostumando quando cheguei. Ele arranca o melhor de você (...). Quando ele chegou (no São Paulo), falei que tinha total liberdade para me cobrar, porque sei que ele quer meu melhor. Me ajudou bastante aqui na Europa.

Mas os segredos da boa fase na Holanda passam por outros fatores também. Antony repete muito que está feliz. Reitera que adora o país e se sente muito acolhido no Ajax. Reforça que soube ouvir os companheiros e o técnico Erik ten Hag para sua evolução tática. E conta com um grande amigo: David Neres.

Antony exibe troféus de melhor jogador da partida e melhor do mês conquistados no Ajax — Foto: Reprodução/Twitter

Antony exibe troféus de melhor jogador da partida e melhor do mês conquistados no Ajax — Foto: Reprodução

Confira a entrevista completa:

O Ajax tem dois vídeos muito engraçados com você e o David Neres. Em um deles você se enrola muito para desenhar o Cristo Redentor e a bandeira do Brasil. Sentiu a pressão?

– Sei que sou talentoso, mas para desenho é meio complicado. É muito pressão. Não sinto pressão dentro de campo, mas ali eu senti. Eu não sei o que passou na minha cabeça que ali eu não consegui desenhar o Cristo Redentor e a bandeira do Brasil. Eu vejo e até hoje dou risada.

E no outro vídeo, é você fazendo experimento de comidas (veja abaixo). Como foi essa experiência?

– Eu odeio cebola, e quando comi o peixe, vi a cebola e me deu até agonia. Eu sou muito difícil para comer. Sou muito “frescurento”, e quando vi o peixe com a cebola. E o Neres sabe que não gosto de cebola. É resenha até hoje.

O David Neres foi importante para sua adaptação no Ajax?

– Foi fundamental no meu começo aqui, por não estar no meu país, não falar a língua, estar em uma cultura diferente. Ele me ajudou muito nisso. Foi a primeira pessoa a vir. O preparador físico do Ajax (Alessandro Schoenmaker) também, que é brasileiro. O Neres foi no hotel, tomamos um suco, ele jantou comigo. É um grande parceiro que tenho.

Você esperava se adaptar tão rápido?

– Todos falavam que tem o frio, outra língua... e desde quando soube que ia assinar com o Ajax, me preparei muito para isso. Sempre fui um menino que “vira a chave” muito rápido. Pensei comigo mesmo, sem contar para ninguém, que aqui na Europa tem que ser assim. O frio não ia atrapalhar em nada. Conversando com meus empresários e minha família, eu disse isso, a pressão maior era quando eu morava na favela e 9h da manhã ia para a escola e só comia alguma coisa às 9h da noite. Isso sim é um pouco de pressão. Fora isso, a gente se adapta rápido. A gente vai se acostumando ao frio. Vamos se entrosando no país, com a língua, vai entendendo. Me adaptei muito rápido. Quando soube que ia assinar com o Ajax, me preparei mentalmente para chegar aqui e adaptar o mais rápido possível e foi o que tentei fazer.

O Ajax foi uma decisão pensada para o seu estilo de jogo, para o que você pensa na carreira?

– Foi. Decisão minha, família, meus empresários. Colocamos as melhores possibilidades e tomamos a melhor decisão. Foi a decisão certa. Estou muito feliz, país maravilhoso, todos muito gente boa no clube. Vejo a felicidade deles também de eu estar aqui ajudando.

Agora que você assinou está tendo sucesso, pode falar: quais outros clubes tiveram interesse?

"O pessoal nem me deixava por dentro disso. Eu sempre falei pro meu irmão e meus empresários para cuidar tudo de fora de campo. Foi assim. Rolou interesse do Borussia Dortmund também".

Como é a resenha no vestiário em um clube com tantas nacionalidades diferentes?

– É muito cara de vários lugares, mas quem está sempre junto somos eu, Neres, Álvarez, mexicano, Martínez, e Tagliafico, que são argentinos. Com os outros também, a gente puxa um inglês. E de vez em quando eles tentam um português, a gente dá risada. O grupo é todo de pessoas maravilhosas.

Você já comentou que sofreu um pouco no início porque o jogo na Holanda é muito mais intenso e pensado. Aqui a gente não tem essa percepção do Campeonato Holandês. Em comparação com o Campeonato Brasileiro, é diferente mesmo?

– Tem uma diferença, sim. A intensidade da Europa toda, não só do Holandês.

E você jogou Champions também...

– Ali que eu vi a diferença mesmo. Tem muitas coisas que no Brasil não é como aqui, velocidade de jogo, posicionamento, a tática. Quando falei que apanhei um pouco, foi mais nisso. Talvez, no São Paulo o Diniz pensava de um jeito, e aqui as pessoas pensam de outro, em questão tática. E também por conta da língua, de eu não entender, fiquei um pouco perdido no início. Isso me complicou um pouco, mas tentei me adaptar mais rápido possível. Me adaptei ao país e também às táticas e a estratégia do treinador.

E em relação aos adversários mesmo, de dominar e não ter tempo para reagir, de repente. É assim?

– Na Champions, eu tive essa certeza, e até o clássico, contra o PSV. Os laterais são mais inteligentes. São mais próximos. A gente sabe da dificuldade do Brasileiro, que todos os times são em alto nível.

"Aqui tem a velocidade, acho que a leitura de jogo é mais rápida. Crio que isso muda um pouco para o Brasil"

Você fez algum trabalho físico específico? Ganhou massa muscular desde que chegou ao Ajax?

– Ganhei, sim. A pandemia, para muitas pessoas, foi ficar em casa, para mim foi de muito trabalho, para chegar no mais alto nível possível.

"Eu, de 62 quilos, fui para 69 de massa muscular. Trabalhei muito essa quarentena. Era todo dia focado e pensando nos dias para chegar aqui preparado"

– Minha quarentena foi de muito foco, muita preparação. Graças a Deus cheguei em nível bom e estou em porte físico bem melhor.

Em 19 jogos no Ajax, você já tem nove gols. São três a mais que os seis que você fez em 52 jogos no São Paulo. O que mudou pra você virar mais goleador?

– Depois que vim para cá, conversando com o Neres, eu até falei que aqui era bem diferente, em questão de posicionamento. Isso me ajudou muito no começo. Comecei a treinar, a ver os atacantes, a ver o quanto eles chegam perto do gol, o quanto eles marcam para frente. Eu vi a diferença nisso e comecei a comparar um pouco comigo no São Paulo.

"Aqui, eu tenho várias oportunidades de gol, no São Paulo eu tinha poucas. Recebia a bola longe do gol. Aqui, na maioria das vezes, estou sempre perto do gol. Evoluí bastante nisso, coloquei essa meta que precisava fazer gol, precisava participar. Foi uma evolução incrível e fico muito feliz por isso".

Tem certamente uma influência do Ten Hag, um cara que apareceu para o mundo naquela campanha espetacular na Champions. Mas, pela forma que o Ajax joga, pressionando os seus rivais, ele te ajudou nesse sentido, né?

– É um grande treinador. Ele me deixa muito à vontade jogando. Ele fala, cobra sim. Mas deixa o jogador bem à vontade. Isso ajuda. Ele sempre gosta do time de ficar com a posse. Por sermos jovens no Ajax, a gente gosta disso. Isso tem dado certo, e o futebol parece fluir bem mais.

Tem algo específico que o Ten Hag passou para você, algum vício que ele tenha percebido que você tinha do futebol brasileiro?

– Claro que tem, e é o que tem me ajudado a fazer gol. No São Paulo, eu recebia muito a bola no pé. E, com a velocidade que tenho, perdia um pouco disso. Os jogadores também cobravam e falavam: 'Antony, você é muito rápido. Começa a receber a bola no espaço'. Eu tenho começado a receber a bola ali e tenho feito gols. Eu notei a diferença, tenho que explorar mais a velocidade. Tenho utilizado bastante e tem dado certo.

Como vocês encararam a queda na Champions? Foi decepcionante?

– O grupo tinha grandes clubes, o Liverpool, a Atalanta, o time da... Midjylland. Mas a gente sabia da nossa qualidade, estava esperançoso de passar. Empatamos com a Atalanta lá e sofremos o empate. Infelizmente a gente não classificou. Mas tem a Liga Europa e temos que dar o melhor também.

Como você vê o Ajax na disputa da Liga Europa?

– São grandes equipes, muitas equipes boas estão na Liga Europa. A gente sabia disso também. Mas a gente também olha para o nosso lado, a qualidade da nossa equipe, que tem total confiança para ir longe. Ser campeão, não sei? Mas a gente sabe e acredita no nosso potencial. Tem tudo para acontecer. Temos tudo para chegar nas fases finais, sim.

Qual o seu plano de carreira? Qual o próximo passo depois do Ajax?

– O futuro, só Deus sabe. Tenho 20 anos, sou muito jovem. Estou aprendendo bastante aqui na Europa. Quero ser campeão com o Ajax, quero fazer história. Todo jogador sonha com a seleção principal, mas creio que isso é naturalmente. Ir passo a passo, subindo um degrau de cada vez. Todo jogador sonha com a seleção principal, mas sem pressa. Comigo sempre foi passo a passo, e essa situação não vai ser diferente. Tenho trabalhado bastante, com o maior prazer, o maior orgulho.

"Quero ser campeão com o Ajax e a gente sempre sonha com Seleção."

Antony, pela seleção sub-23, no Pré-Olímpico do começo de 2020: "Sonho em jogar na Seleção" — Foto: EFE/Ernesto Guzmán Jr.

Antony, pela seleção sub-23, no Pré-Olímpico do começo de 2020: "Sonho em jogar na Seleção" — Foto: EFE/Ernesto Guzmán Jr.

Mas você deve curtir videogame, né? Você não deve jogar só com o Ajax...

– Eu jogo com o Ajax, viu? É um time bom, time rápido. Na última vez que joguei com o pessoal aqui, eu joguei com o Ajax. É bem rápido.

E o Antony não sai desse time, né?

– Comigo, ele está jogando. Mas quando ele está mal, tem que sacar!

Mas de vez em quando você não escolhe um Real, Barça, Liverpool...

– É normal, no videogame a gente joga com outros clubes. É normal.

E você não enxerga um Antony nesses times aí futuramente?

" O futuro só pertence a Deus. Estou muito feliz aqui no Ajax. Está muito cedo para falar disso. Estou subindo os degraus. As coisas vão acontecer naturalmente"

Você sente se está mais perto da Seleção? Em que estágio está?

– Eu não sei. Meu trabalho está sendo bem feito. Tenho a seleção olímpico, que é muito importante. A gente luta para estar lá. É mais a parte deles (comissão técnica). A minha, eu estou fazendo. Vou continuar trabalhando.

Você já negociou a liberação com o Ajax para a Olimpíada?

– A gente não conversou sobre isso. Mas vai ter conversa, sim. Mas é mais para frente.

2022 está na sua mira?

– Não sei. Só o tempo vai dizer. O trabalho vai continuar sendo feito 100%. Está nas mãos da CBF, do treinador, da diretoria. Meu trabalho está sendo feito.

Qual sua principal referência na sua posição?

"Eu sempre falo do Messi. É inspiração. Vejo vídeos, sempre observo. Me espelho nele bastante, por ter as mesmas características, por ser muito objetivo e ter personalidade fora do norma".

Você tem acompanhado o São Paulo? Ainda está no grupo de Whatsapp?

– Eu tive que sair porque troquei de número (risos). Mas estou sempre em contato com os jogadores. Acompanho sempre. Quando o jogo é cedo aqui em Amsterdã. Estou sempre de olho nos meus companheiros. Converso com o Diniz. Além de ser um grande treinador, é grande amigo. Tenho acompanhado sim.

Os meses sob o comando do Diniz te ajudaram na adaptação ao futebol europeu?

– Ele me ajudou muito. Falo isso para ele, sou muito grato à ajuda toda dele. Até as cobranças, que vocês viram. Sou muito grato a toda a ajuda. Me ajudou muito desde a chegada dele. Eu agradeço muito.

Essas cobranças são normais? Você levava numa boa, era acostumado?

– Sim, o jeito do Diniz é assim. Ele, dentro de campo, cobra, cobra e cobra. Mas fora, é um cara totalmente diferente. Tem resenha, conversa, se dá bem. É um cara muito amigo. Acabei acostumando quando cheguei.

"Ele arranca o melhor de você. Se for ver a evolução do Gabriel Sara, Igor Gomes, do próprio Brenner. O Diniz é um cara disso."

– Quando ele chegou, eu falei para ele que tinha total liberdade para me cobrar, porque sei que ele quer meu melhor. Me ajudou bastante aqui na Europa.

Fernando Diniz abraça Antony, em jogo pelo São Paulo — Foto: Reprodução

Fernando Diniz abraça Antony, em jogo pelo São Paulo — Foto: Reprodução

Confira o vídeo

Fonte:https://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/da-influencia-de-diniz-aos-7kg-a-mais-antony-conta-os-segredos-do-rapido-sucesso-no-ajax.ghtml

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